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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Quem não aparece desaparece.

Amante do estilo denominado crônica li muitas, das cerca de quinhentas escritas por Danuza Leão nos seus doze anos como colunista do jornal Folha de São Paulo.
Nem o melhor dos melhores cronistas, exceto Heitor Cony, podem se dar ao luxo de fazer sempre das suas crônicas um texto claro, curto, inteligente e interessante, daqueles que a gente gostaria de ter escrito ainda que fosse o único.
Mas a maioria das crônicas de Danuza Leão são ou foram muito interessantes ao seu tempo a ponto de merecerem ser relidas e servirem de inspiração.
Com saudades do seu estilo pesquisei no Google e fui lembrado
pela cagueta da Wikipédia que ela tem oitenta e três anos. Nova, se compararmos ao Cony que já fez noventa e um dia desses. 
Não tenho notícias de que ela continue escrevendo em algum jornal ou revista. Ela está esquecida. Mas eu não esqueço.

NAMOROFOBIA – DANUZA LEÃO
"A praga da década são os namorofóbicos. Homens (e mulheres) estão cada vez mais arredios ao título de namorado, mesmo que, na prática, namorem. Uma coisa muito estranha. Saem, fazem sexo, vão ao cinema, frequentam as respectivas casas, tudo numa frequência de namorados, mas não admitem. Têm alguns que até têm o cuidado de quebrar a constância só para não criar jurisprudência, como se diria em juridiquês. Podem sair várias vezes numa semana, mas aí tem que dar uns intervalos regulamentares, que é para não parecer namoro. – É tua namorada?- Não, a gente tá ficando. – Ficando aonde, cara pálida? Negam o namoro até a morte, como se namoro fosse casamento, como se o título fizesse o monge, como se namorar fosse outorgar um título de propriedade. Devem temer que ao chamar de namorada (o) a criatura se transforme numa dominadora sádica, que vai arrastar a presa para o covil, fazer enxoval, comprar alianças, apresentar para a parentada toda e falar de casamento – não vai. Não a menos que seja um (a) psicopata. Mais pata que psico. Namorar é leve, é bom, é gostoso. Se interessar pelo outro e ligar pra ver se está tudo bem, pode não ser cobrança, pode ser saudade, vontade de estar junto, de dividir. A coisa é tão grave e levada a extremos que pode tudo, menos chamar de namorado. Pode viajar junto, dormir junto, até ir ao supermercado junto (há meses!), mas não se pode pronunciar a palavra macabra: NAMORO. Antes, o problema era outro: CASAMENTO. Ui. Vá de retro! Cruz credo! Desafasta. Agora é o namoro, que deveria ser o test drive, a experiência, com toda a leveza do mundo. Daqui a pouco, o problema vai ser qualquer tipo de relacionamento que possa durar mais que uma noite e significar um envolvimento maior que saber o nome. Do que o medo? Da responsabilidade? Da cobrança? De gostar? Sempre que a gente se envolve com alguém tem que ter cuidado….Não é porque 'a gente tá ficando' que não se deve respeito, carinho e cuidado. Não é porque 'a gente tá ficando' que você vai para cama num dia e no outro finge que não conhece e isso não dói ou que não é filhadaputice. Não é porque 'a gente tá ficando' que o outro passa a ser mais um número no rol das experiências sexuais - e só. Ou é? Tô ficando velha? Se estiver, paciência. Comigo, só namorando!!!"

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